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Incentivo à Arte

por Bete Brito

Categorias: Artigos

16/12/2008 às 12:01

Conto escrito especialmente para Bienal Infantil , colegio marista Assunção de Porto Alegre-RS, onde as crianças de 3 a 6 anos fizeram releitura de algumas obras de Bete Brito.

Incentivo à Arte

Pousou o lápis sobre a mesa e se perguntou se alguém iria entender aquelas palavras. Em vão tentou se desfazer e recriar-se em outra pessoa, fingindo ler o que ela própria escreveu.
Recriar, pensou, era o que ela não conseguia fazer e se fazer entender.
Repensou, e repensar era o que ela mais sabia fazer, no que estava escrito, mas esse não era o problema.
Suas palavras eram claras, objetivas, descreviam precisamente o movimento de oscilação, seu tema favorito.
Não era à toa. Tudo à sua volta oscilava.
O pêndulo do relógio na parede, as ondas do mar que se viam pela janela.
O zumbido do mosquito que a atrapalhava a dormir.
Quando saiu à rua, presenciou um festival de vaivém para onde pudesse olhar.
Os carros indo em uma rua, voltando pela outra.
O semáforo indo do vermelho para o verde, do verde para o vermelho.
As cartas com o carteiro que vão do correio para as casas e das casas para o correio.
A colher girando na xícara da moça sentada no café, misturando o açúcar.
O cheiro do café que de repente invadiu seu olfato, tão rápido quanto foi substituído pelo cheiro de fumaça do ônibus que passou e depois pelos demais cheiros por onde passou.
Parando debaixo de uma árvore, repensou, de novo, em recriar.
Era outono, então ela percebeu que as folhas dessa árvore estavam ficando amareladas, e constatou que ali também havia mudança: o verde ia ficando amarelo devagarzinho, de uma ponta à outra de cada folha, e devagar aquela árvore toda passaria de verde para amarelo.
Não precisou de mais que esse preciso instante para que ela entendesse finalmente que o que ela queria dizer no seu texto já estava escrito, bastava perceber os detalhes ao seu redor.
E se lembrou do caminho que havia percorrido, repensando, com esse novo olhar, todas as cenas que presenciou. O relógio na parede, as cartas no correio, o café girando na xícara, as folhas no outono.
Tudo isso era mais do que suficiente para que ela pudesse afinal poder explicar para seus alunos aquele assunto.
Voltou para casa correndo e refez sua aula.
No lugar dos gráficos desenhados na lousa, iria tocar um trecho gravado do som das ondas do mar.
Em vez de descrever todas as forças que fazem balançar o pêndulo do relógio, colocaria os alunos para brincar no balanço da escola e fazê-las sentir o movimento.
Para mostrar a suavidade do movimento, mostraria aos alunos as folhas que mudavam de verde para o amarelado no outono.
Ao preparar tudo isso, ainda animada, comentou com seu marido sobre tudo o que tinha descoberto sozinha.

Ele ouviu atento e, quando ela terminou, sorriu para ela e disse: “Você está apenas usando arte para ensinar. Garanto que seus alunos agora vão ver o mundo com olhos diferentes.”

Se deu conta então de que naquele momento quem estava enxergando com olhos diferentes era ela mesma e concluiu que com a sensibilidade que conquistou pela arte descoberta há pouco ela poderia entender melhor a si mesma e o seu papel no mundo.

Comentário para as crianças:
Como vocês viram no conto o professor esta sempre aprendendo e nada melhor que o nosso dia a dia e a natureza, para nos ensinar.
A arte esta em todos os lugares é só saber olhar e sentir.
Um grande beijo no coração de cada uma.
Bete Brito

Video no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=jR5W59UWGrc


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